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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Amor Ocre


Como em toda história de amor, o sol se escondia no horizonte, e o mundo parecia um mar de lava. Aguardava impacientemente que o dia desse, enfim, lugar à noite. A fome me consumia como algo vivo, se alastrando, dominando, confundindo meus pensamentos. O cubículo onde me encerrava, antes aconchegante, parecia claustrofóbico nesses minutos de espera.

Uma vez o céu negro, assim eu me fiz também. O hálito frio da noite me envolvia em um abraço sensual. Precisava saciar a fome. A fome! A fome era tudo o que existia, quase uma dor, pungente.

Som de passos, cheiro morno. Me esgueirei por detrás de um muro, e a aguardei. Então ela veio, linda. Um longo pescoço alvo que culminava em uma cabeça bem feita, sob uma profusão de fartos cabelos negros. Introspectivos olhos azuis. Como uma gazela, suas pernas longas e ancas ondulantes. Caminhava lenta e distraidamente. Tudo nela transpirava...vida.

O desejo eram tentáculos. Cego pelos instintos, como um animal farejante, dei-lhe o abraço. Seu pescoço tenro ofereceu pouca resistência a meus dentes. Macio, macio, seu cheiro me inebriava e seu coração batia tão rápido quanto o meu, em uníssono. O sangue, tão doce, trazia uma deliciosa sensação de calor por todo o meu corpo. Ela me repelia, ao mesmo tempo em que se deixava enlaçar. Uma mistura de medo e desejo, resistência e aceitação, que me fazia querê-la como, parecia, jamais poderia fazê-lo novamente. Era a sublimação do amor em sua forma mais pura. A sensação de que nunca me saciaria dela.

Senti, então, minha amada desfalecer em meus braços, e a deixei, enfastiado. Era agora uma carcaça inerte, montanha de matéria orgânica inútil. Comida de vermes e insetos. Levemente enojado, desviei-me daquilo que brevemente seria putrefato, espalhado sobre a calçada imunda.

domingo, 2 de novembro de 2008

O pequeno grande ponto bege no infinito azul


Acordo e me vejo preso nas correntes da sobrevivencia que unem-me à este pedaço de madeira milagroso, sou levado pela corrente marítima. Ainda bem que estou vivo e que a tempestade já passou.


Nesse momento começo a pensar, mas imediatamente paro e questiono o porquê de questionar. Filosofar sobre o mundo não tem utilidade prática, não vai mudar em nada a minha condição atual, mas faze-lo é prazeroso e isso ja é suficiente.


Contemplo minha ignorância perante este espelho celeste, enquanto o espelho contempla a dele perante o que este espelha. Ambos insignificantes e indeferentes para o todo.


No meio do horizonte infinito, vejo uma terra de cores claras. Antes ao meu redor só havia o azul, parecia que este era infinito. Era só impressão.


A sensação de prazer que eu tenho ao perceber uma chance de sobrevivencia e ao receber as ondas de luz dessa terra, me fazem perceber que o infinito era uma ilusão que o cíclico nos traz, entendo que o espaço deve ser cíclico também, se fechar nele mesmo, o infinito é um absurdo.


Junto minhas forças e remo em direção à praia, a correnteza me ajuda e não demoro muito para chegar.


A praia é praticamente deserta, com excessão de alguns pequenos arbustos. Nesse momento vejo dois horizontes um azul e um bege.


Morto de fome, procuro algo para comer, vejo um pequeno roedor e consigo pega-lo.


Faço uma fogueira, asso o mais primitivos dos mamiferos, janto o meu parente e me satisfaço. Deito nas areias brancas e durmo.


No dia seguinte acordo cansado e fraco ainda, sem saber o que fazer, que rumo tomar.


Não sei o que me leva, desconheco o porque, mas sei que entro no deserto solitário de areias companheiras...

sábado, 18 de outubro de 2008

O presente do Deserto


Não sei o que me leva, desconheco o porque, mas sei que entro no deserto solitário de areias companheiras, à marcha lenta eu ando e o sol não me mata, mas a noite vem me mostrar a sua luz, não sei se é bom ou ruim, na verdade não sei mais o que é bom ou ruim, não sei de nada, mas sei que saberei no fim desse caminho construido nas colinas deserticas.

De repente entro numa viela, parece que algo me antinge incessantemente, é a garoa que cai lentamente e sem barulho, olho para a luminária na rua e só vejo uns finos trechos de agua caindo do ceu, sem rumo eu sei para onde eu vou.

Perco totalmente a noção do tempo e do espaço, o mundo se derrete, e já não conheço mais o meu “eu”, pois eu nunca sou, não consigo pegar o presente. Vejo uma caixa de correio, minha curiosidade me leva até ela, chego perto e pego um pacote bem embalado, e lá estava ele: o presente.

Percebo que o presente estava malpassado, na verdade o presente era malpassado, não existia, tinha acabado de passar, mas como poderia ter uma luminária e uma caixa de correio no meio do deserto? Me parecia ser um sonho.

Acordo no meio do deserto, percebo que a garoa na verdade eram as gotas de suor que percorrem o meu corpo, tinha dormido muito e acordado com o ardor fervente do deserto.

Mas me questiono: e se tudo for um sonho? Quando sonho penso que é real, mas quando acordo consigo diferenciar minhas experiencias oníricas do que meu olhar apanha, mas não consigo provar as imagens formadas na minha consciencia, pode ser tudo um sonho mesmo, mas não vejo vantagem em tratar o que eu percebia como fantasia, não apalpo o pragmatismo, logo coloco-me a caminhar pelo deserto mais uma vez.

Continuo, o deserto é o obstaculo, a mente é a minha aliada e a esperança minha ferramenta, não sei porquê tomei essa decisão, não sei se alguma vez na vida já tomei alguma decisão, será que sou diferente desses grãos de areia que são levados pelo vento desertico? Que vento que me trouxe aqui? Nao sei, desconheço.

No meio dessa aridez me encontro com um sentimento de solidão humana percebo que faço parte do mundo, mas de onde eu vim? E a areia, da onde esta veio? Sei que a areia se formou a partir do intemperismo, quanto tempo levou para formar esse deserto? E eu? Sou tão especial assim?

Me parece que sou igual a areia em sua solidão grupal e estimo que me tornarei uma, aquela que tenta se abraçar a outra quando os ventos sulinos se aproximam tentando leva-las em caravana para longe, mas que no fim é o mesmo lugar.

A tristeza me carrega e sem forças eu marcho, o medo toma conta de mim, nesse momento não tenho controle, percebo que na verdade eu nunca tive, apenas a ilusão de um, tento lutar, mas no fim sou incapaz de vencer as leis que regem esse mundo, deito e esposo meu passado e meu futuro, minha origem e meu presente: as areias do deserto.