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sábado, 12 de junho de 2010

Asta la vista, amigos.

Trilha sonora de despedida:




Era uma vez um cara chamado Caio que se mudou, com a esposa, para Portugal. Longe dos amigos, do sol e do surf, em plena neve e com o mestrado ainda incipiente, sobrou-lhe o ócio.

No outro continente, a Paula resolveu se mudar para Curitiba. Longe da família e dos amigos, numa cidade gelada e com o doutorado ainda incipiente, sobrou-lhe o ócio.

O que fazem as pessoas ociosas com ADSL disponível? É claro que debatem em comunidades de filosofia do orkut! E assim foi.

O Caio e a Paula eram totalmente diferentes entre sí, Minestrone e Bolognesa. Mas compartilhavam de muitas idéias e gostavam de debatê-las. Daí nasceu o blog.

Quase todos os textos publicados eram, na verdade, resultado dessas discussões. Um deles escrevia, enviava para o outro para chegar a um consenso sobre possíveis novas discordâncias, e lá estava a idéia final, pronta.

Mas o tempo passou, e o Caio se tornou papai de uma menininha linda. Junto com isso, o mestrado começou a mostrar porque é que a maioria das pessoas não se animam a fazê-lo.

Pouco tempo depois, o doutorado da Paula também começou a fazer suas exigências improrrogáveis.

Os tempos de ócio, então, findaram-se.

O Caio, ás vezes, aparecia e dizia: "Vou escrever um texto para o blog, assim que der!" Mas é claro que a nossa vida diária nem sempre colabora com as nossas intenções.

A Paula até que tentou, algumas vezes, publicar textos. Mas com o tempo disponível reduzido, a mente concentrada em outras coisas, e sem as idéias e debates com o Caio, o blog foi progressivamente decaindo.

A finalidade de um blog é expor idéias; ele não tem um fim último em si mesmo. A partir do momento em que as idéias é que servem ao blog, e não o contrário, ele perde seu sentido.

O Minestrone a Bolognesa, então, entra de férias indeterminadamente.

Obrigada aos amigos que sempre se dispuseram a pensar nossas idéias conosco. Nos vemos nos próximos bons tempos de ócio criativo!

domingo, 30 de maio de 2010

(Des)construção

Se a cultura efetivamente atua como causa e não apenas conseqüência de quem somos, todas as nossas observações são de uma perspectiva construída. Nossos paradigmas são contextuais.

E não são?




Antes do século XVIII, nós víamos o mundo sob o prisma do uniformitarismo.As relações sociais baseavam-se na "hereditariedade" do poder, as classes sociais eram estáticas, e as ciências - desde a teologia até a geologia - pregavam que o universo era também estático. As transformações eram tidas como ocasiões excepcionais dentro desta estabilidade.

Então veio a revolução burguesa, decorrente de um processo dialético instaurado progressivamente, e as relações sociais passaram a ser vistas de outro modo. A realidade estava em constante transformação. As mudanças são agora a regra, e não a exceção. As classes sociais nada mais tinham de estáticas, mas dependiam do próprio esforço. Era a idéia de meritocracia que se instalava em nossa sociedade.

A teologia passou a interpretar a bíblia numa "dialética diluviana", e apenas 70 anos depois da Revolução Francesa, quando a mentalidade do feudalismo estava definitivamente morta e enterrada, Darwin tem sua famosa idéia e publica A Origem das Espécies.Logo em seguida, no início do século XX, surge Einsten com sua Teoria da Relatividade, que originou a idéia de expansão do universo e a teoria do Big Bang.

Será coincidência que as idéias sociais e as idéias científicas andem tão de mãos dadas?

Podemos, então, pensar na questão do método, que a priori assegura a repetibilidade e confiança nas premissas científicas.

Entretanto, para usar como exemplo, o método atual é proveniente da filosofia de Descartes. Mas se a cultura é causa do que somos, Descartes também estava sob a influência de um contexto. E é verdade: seus princípios condizem com a idéia vigente em sua época de que as partes compunham o todo, também reflexo de um contexto social que passou a privilegiar o indivíduo e não a massa.

Há ainda a possível defesa de que o pensamento científico possui uma linearidade. Relações de causa e efeito, interações.

Mas a maneira de estabelecermos essas relações entre variáveis só levam a este determinado resultado porque utilizamos este determinado método. Com outro, o resultado muito provavelmente seria diferente.

Um bom exemplo para isso é a consciência. Suponhamos que não soubéssemos que ela existe, não a percebêssemos.

Um cientista resolve estudar o cérebro, e verifica sua morfologia, células, átomos. Ele vai concluir muitas coisas destas observações, mas com certeza ele não descobriria a existência da consciência.

A consciência é uma característica que depende da união de todas as variáveis. Ela emerge do conjunto, e não pode ser observada em cada parte deste. Um cartesianista separa estas variáveis, de modo que não visualiza uma propriedade emergente.

Então podemos afirmar, seguindo o exemplo acima, que a conclusão (hipotética) da inexistência da consciência é fruto de um contexto. Afinal, o resultado obtido faz parte e não pode ser vendido separadamente do método utilizado para alcançá-lo.

Para além das verdades científicas, o próprio processo de desconstrução cultural torna-se igualmente sem sentido para além do circunstancial. Trata-se de desconstruir algo para reconstruí-lo sob as perspectivas de um novo contexto. Nosso contexto.

Com essas desconstruções e reconstruções, sempre contextualizadas a partir de uma perspectiva própria, será que criamos paradigmas falsos? Ou será que os paradigmas anteriores é que eram falsos, e se chocam com a realidade?

Na verdade, sob esta lógica, nos cercamos de uma realidade viciada criada por nós mesmos. Acabaram-se, assim, os paradigmas minimamente sustentáveis. Como já disse Pascoal, estamos caminhando sobre degraus que continuamente se esvanecem. Correndo para pisar no próximo degrau e não cairmos num abismo onde não há nada para nos sustentar.E

ntretanto, enquanto escrevo isso, estou sendo influenciada pelo meu contexto. Vivemos num período pós-modernista, em que o relativismo domina sob todas as formas possíveis. Uau, que idéia original e inovadora é escrever algo que relativiza todo o conhecimento dentro de uma circunstância pós-moderna!

E, ao mesmo tempo, que tiro no próprio pé! Se as idéias são fruto do contexto – inclusive as minhas – então elas não podem ser verdadeiras para além deste momento.

Sim, você que está lendo também.

Ahnn, você discorda?

sábado, 8 de agosto de 2009

Uno et unum




O ponto principal de argumentação favorável ao monismo seria que duas entidades fundamentais com algo em comum não seriam verdadeiramente fundamentais, pois teria algo anterior a elas na escala ontológica, que seria o "'ponto em comum". Poderia ser representado, então, na forma de gradações.

Já o dualismo se fundamenta principalmente no próprio pensamento cartesiano, onde o sujeito é separado do objeto, e os objetos constituem unidades fundamentais em qualquer escala. Uma representação seria o sistema binário dos programas.

A nossa percepção é predominantemente dualista.
Percebemos, por exemplo, a gradação da luz até que se torne escuro, e isso seria a princípio uma percepção fundamentalmente monista. Mas, mesmo nessa gradação, dualizamos, porque vemos a progressão como "agora está mais claro que escuro", "agora, está meio a meio", "agora está mais escuro do que claro"... Ou seja, nossa percepção da gradação não é de unidade entre os dois objetos, mas uma mistura de objetos distintos.

Ao mesmo tempo, nossa lógica é também predominantemente dualista.
Temos a tendência a categorizar os objetos, porque, assim, se obtêm menos variáveis. Categorizando, obtemos elementos fixos que se confundem entre si, mas os dualizamos frente aos demais. Uma lógica com elementação monista é um tanto inviável, porque deveria envolver todos os "pontos em comum" de todos os objetos analisados, o que significaria infinitas variáveis. Além disso, estabelecemos relações claras de causa e efeito. Bem, se há uma causa para um efeito, estes são a princípio entidades diferentes.

O problema parece resolvido, de modo favorável ao dualismo. Mas vamos analisar com maior escrutínio a questão, exemplificando com a matemática.

Os números 1 e 2 são diferentes. Mas sabemos que, entre ambos, há infinitos números.

A princípio, se há gradação, há progressão. E, se há uma progressão, há o dualismo entre seus estágios, mesmo que infinitamente próximos. Mesmo em um número infinito, haverá um valor tal que o separe do próximo número. Por mais pontos em comum que 1,99(...)8 e 1,99(...)9 tenham, o ínfimo 8 e 9 da última casa devem ser duais, do contrário, não haveria progressão.
Então, mesmo indo ao infinito no conjunto numérico, a progressão se dará a partir de infinito + 1 em algum ponto.

Mas, entre o 8 e o 9 da última casa, também há infinitos números. Portanto, a abordagem correta seria que uma progressão se daria a partir de infinito + infinito em cada um dos pontos. Mas infinito + infinito é a mesma coisa que infinito. Portanto, sempre haverá um ponto em comum, mesmo numa progressão! Isso torna, portanto, o 1 e o 2 não diferenciados como unidades fundamentalmente distintas, apesar de haver uma progressão que os torna pontos extremos, e, portanto aparentemente diferentes.

Mas o universo não é só 1 e 2. É uma progressão dual de 0 a Z (sendo Z uma representação imaginária forçada do último infinito número, para tornar o conjunto finito).
Se observarmos o conjunto total de 0 a Z, esta progressão com infinitos números em comum faz com que, pela mesma lógica acima, todos os objetos sejam efetivamente os mesmos, apesar de diferentes.

Mas se considerarmos os pontos 1 e o 2, isoladamente, e depois o 3 e o 4, essa lógica não se validará. Entre o 1 e o 2 há infinitos números, e entre o 3 e o 4 também. Mas os infinitos números entre 1 e 2 não são os mesmos que entre 3 e 4, porque o início da progressão se dá em valores diferentes. Isso leva a impressão, portanto, que "1 e 2" e "3 e 4" são conjuntos qualitativa e quantitativamente diferentes. Ou seja, duais.

Entretanto, no caso dos números, nós podemos perceber claramente que os conjuntos "1 e 2" e "3 e 4" são uma amostragem tendenciosa, porque ignoramos a gradaçao entre 2 e 3. Então, nesse caso, o aparente dualismo é fruto de nossa retirada de variáveis reais.

Este problema de amostragem pode ser aplicado a realidade como um todo. Seria algo semelhante a nunca ter saído do Amazonas, e perguntar a você como é a vegetação em Goiás. Com a descrição, eu provavelmente teria a idéia de uma ilha do cerrado absolutamente separada da ilha da floresta. Mas, se observarmos bem, a zona de intersecção é tão grande e dinâmica que na prática é praticamente impossível saber quando é que começa uma e termina a outra.

Quando resumimos a matéria a seu elemento fundamental, esta lógica que leva ao monismo nos números se aplica. Tudo bem, que a física coloca partículas como os quarks, que seriam destituídas de matéria, como o elemento fundamental, e não algo como o infinito. Mas, a partir do momento em que são os mesmos, independentemente da qualidade desta matéria, eles representam o "ponto em comum" em toda a realidade, como o infinito faz com os números.

Mas então, me surge um outro paradoxo, sem resposta:

Como é possível a lógica e a percepção se darem de modo dual, e, através desta mesma lógica dual, concluir que o monismo é mais próximo do real do que o dualismo?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Facas cegas de um só gume



PARTE II: OS FATOS




Interpretações sem sentido


Um exemplo dos erros que naturalistas e culturalistas costumam cometer pode ser visto em “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir (1).


Nesta obra, a autora se dedica a questionar e analisar as conclusões que se pode tomar acerca de algumas das afirmações científicas de então. Uma delas seria a de que o óvulo é um agente passivo, por sua natureza estática, e o espermatozóide ativo, por sua natureza motil; outra, o fato de que o espermatozóide é o responsável pela determinação sexual, uma vez que pode carregar consigo o cromossomo heterólogo.


Alguns autores da época atribuíram juízos a estes fatos biológicos, considerando-os prova da inferioridade e passividade naturais femininas, juízos estes que Beauvoir questiona colocando outras interpretações possíveis.


Mas o que eu questiono é: qual a relação efetiva entre estes dados biológicos e quaisquer juízos atribuídos? O óvulo é apenas uma célula germinativa. O que um caráter estático ou ativo aplicado a uma célula pode influir na determinação do indivíduo? Se há uma relação de interdependência entre os gametas masculinos e femininos para a geração de um embrião, como podemos atribuir valores diferentes a um ou outro? E, mesmo que se aplicasse, isso só poderia ser referente à própria célula.


Assim, a busca por interpretações de dados que se encaixem a seus valores são, no caso, realizadas por ambos os lados da questão, e giram em torno do mesmo erro de inferência. Na natureza não há melhores ou piores, todos os organismos estão bem adaptados. Dados biológicos, portanto, não servem para a atribuição deste tipo de valor.



Relações de superioridade


Um outro bom exemplo – e este é especialmente interessante para demonstrar que as conclusões costumam ser inadequadas mesmo quando se destinam a uma causa justa - são as afirmações registradas por diversos grupos a respeito dos estudos que mostram que não há raças dentro da espécie humana (2). Se não há raças, não se justifica o preconceito racial.


Entretanto, se é necessário a inexistência de raças para que o racismo se torne obsoleto, subentende-se que há razão em existir preconceitos – desde que existam diferenças.


Mas, então, na ausência de raças, podemos verificar a existência de populações diferentes na espécie humana. E alguns estudos sugerem que os judeus possuem um QI acima da média da população mundial (3). Podemos inferir daí o juízo de valor de que os judeus são uma população “melhor”? Me parece que a única inferência adequada é a de que grande parte deles se sai muito bem em testes de QI.


Como podemos estabelecer relações de superioridade ou inferioridade baseando-nos em uma ou outra característica? Nenhuma diferença justifica tal tipo de classificação, pois ela é generalista.



Generalizações de população para indivíduo


Seguindo por esta lógica, chegamos ao caso das generalizações por uma inadequada interpretação de dados descontextualizados da curva normal.


A curva normal de uma população possui geralmente o formato de sino, e reflete a distribuição de determinada característica nesta população. No eixo X estão os valores referentes á característica em questão, e no eixo Y está a freqüência encontrada.


O valor máximo representa a média da população, que é o valor/característica mais freqüente, e nas extremidades estão os valores mais raros.



Se eu afirmo que o QI dos judeus é mais alto (3), na realidade estou me referindo a este valor máximo, do ápice do sino, que descreve a população deles. Ao comparar com a curva normal da população mundial, veremos um deslocamento desta curva para a direita na população dos judeus. Segundo este estudo, o QI de um judeu ashkenazi (da Europa oriental) varia entre 107 e 115 pontos, enquanto a média da humanidade é de 100. Pois bem, se a variação é essa, podemos considerar que a média dos judeus seja 111.


Mas a curva normal da população mundial inclui todo e qualquer valor que ocorra.


O que podemos deduzir disso? Que há mais judeus nesta faixa de valor, mas veja quantas pessoas no mundo possuem um QI bem mais alto do que o deles. E quantas possuem um QI igual.


Assim, um estudo sobre médias de populações jamais poderá predizer que um indivíduo tem um valor mais alto de determinada característica do que outro. O único significado é que as médias das populações são diferentes!


E isso se dá a todos os estudos do gênero, não apenas a este.



E o problema continua!


Enquanto isso, na sala de justiça, os naturalistas e culturalistas debatem sobre a origem genética ou cultural dessa diferença – debate, por sinal, válido. Os culturalistas acreditam que, pelo fato de algo ser instituído culturalmente, isto significa que a sociedade deva ser modificada, se tal característica beneficia um grupo em detrimento de outro. Assim, recusam-se a ceder a um possível “naturismo”.


Os naturalistas acreditam que a sociedade foi construída a partir destas diferenças inatas, de modo que aplica-se o “direito natural”.


Ambos não percebem que ao modificar o meio, modifica-se a expressão da característica, de modo que ela sempre resulta do meio, mesmo que seja inata.


Mas ninguém se preocupa em questionar, a priori, o ponto principal: até que ponto é logicamente válido realizar inferências além das descrições, independentemente de suas origens?




Há uma belíssima contra-argumentação a este texto, redigida pelo filósofo Gilberto Miranda Jr., disponível em:

http://miranda-filosofia.blogspot.com/2009/04/facas-gumes-e-reflexoes.html



Referências Bibliográficas


(1) Beauvoir, S. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. 4a. edição, v. 1. Difusão Européia do Livro, 1970.


(2) Pena, D. S. Receita para uma humanidade desracializada. Ciência Hoje On-line. Disponível em http://cienciahoje.uol.com.br/56561


(3) A inteligência é genética? Revista da semana. Disponível em http://revistadasemana.abril.com.br/edicoes/11/polemica/materia_polemica_259364.shtml?page=1


Facas cegas de um só gume


PARTE I - AS IDÉIAS


É interessante como quase todos os debates sobre diferenças sociais e comportamentos caem no Nature x Nurture, e no chamado direito natural. Mas creio que grande parte desses debates, assim como diversas das referências, incorrem em erros comuns.



O determinismo


A princípio, há as críticas dos que defendem arduamente os fatores histórico-culturais como os maiores elementos desencadeantes do comportamento social atual. Sua principal indignação é o determinismo que os naturalistas impõem. Oras, veja que se considerarmos os genes ou os valores adaptativos como principais fatores, trata-se de determinismo, sem dúvida. Mas não estaria a humanidade também sob o determinismo histórico, se pensarmos de modo oposto?


Exceto os que consideram a existência de alma e transcendência – o que foge ao objetivo da abordagem cética que temos aqui – ninguém pode negar que o homem é fruto do conjunto de sua natureza e fatores histórico-culturais. Defendendo Nature ou Nurture, somos todos deterministas e reducionistas, pois reduzimos o homem às contingências determinantes.



Parcialidade


Há os defensores de um e outro lado que ignoram os argumentos contrários.

Mas um dos maiores princípios da genética é a de que a expressão é extremamente vinculada ao meio, e que os valores adaptativos se modificam com a evolução cultural e as alterações ambientais como um todo.


Por outro lado, não é possível pensarmos apenas no ambiente social como determinante de um comportamento, a não ser que se considere que o homem é um papel em branco. Mas isso seria ignorar a sua natureza física, relacionado ao corpo; seria considerar que o homem é fruto apenas de idéias, e que nada de material o influencia.


Assim, todos os argumentos que ignoram um ou outro aspecto são no mínimo parciais, ou até mesmo má-fé, em alguns casos.


Os culturalistas se afligem com as conseqüências éticas e políticas dos estudos biológicos, e têm sua razão nisso. Entretanto, a ciência busca, como princípio essencial, descrever o modo como a realidade se dá. Mas a natureza não possui em si princípios éticos. A moralidade, a política, são propriedades culturais. Um cientista idôneo não pode ser tendencioso, do contrário seus resultados seriam questionáveis e aplicáveis apenas à sua perspectiva pessoal. Assim, o levantamento de questões científicas e os resultados obtidos não podem submeter-se aos princípios éticos culturais – apesar de os meios utilizados para isso deverem ser questionados. Se o forem, nosso conhecimento da realidade será sempre a politicamente correta, e nenhuma descoberta real terá sido realizada.


O problema, portanto, não são as pesquisas que associam o comportamento a algum fator biológico. Se o conhecimento da realidade é uma busca de todos, a censura dos experimentos deste tipo seria uma forma de alienação.


O erro está nas inferências a partir destes resultados – tanto da parte de culturalistas como de naturalistas



A falácia do direito natural


Alguns naturalistas colocam que, pelo fato de instintos associarem-se a alguns comportamentos, isto os leva à categoria de “natural”, e, portanto, devem ser respeitados – o famoso direito natural. A meu entendimento, isso é uma falácia.


A falácia do direito natural deve-se ao fato já mencionado de que os princípios éticos são propriedade cultural. É fato, também, que a própria instituição da sociedade pode ser considerada como respondendo à princípios de adaptação. Mas, então, gera-se dois argumentos contrários à lógica do direito natural:


O direito em si é algo que retrata o que nossa razão determina como certo e errado, por mais que esta razão seja estritamente contingenciada, e tem como finalidade a manutenção da sociedade em coesão. Assim, se determinado comportamento, por mais que seja instintivo, tiver um valor contrário à esta coesão, não há porque ser mantido.


Pode-se ainda argumentar que fere os princípios da liberdade individual a não manutenção de um comportamento instintivo, e que, portanto, isso é absurdo. Entretanto, toda e qualquer sociedade é constituída por regras que visam a si, e isso reflete seu valor adaptativo como grupo coeso. O paradoxo entre liberdade individual e esforço coletivo se mantém, neste sentido, em qualquer sociedade na natureza.


Os culturalistas, ao invés de questionarem a validade do próprio direito natural, questionam a veracidade dos resultados de experimentos que possam acarretar inferências sobre o certo e o errado. Assim, restringem-se a uma explicação única da realidade, ignorando fatores que podem ser importantes na compreensão do porque as coisas são como se dão. Além disso, agindo assim, subliminarmente concordam com a utilização destes dados para estabelecer-se os princípios éticos e as políticas públicas.


Como Simone de Beauvoir cita, “em verdade, a natureza, como a realidade histórica, não é um dado imutável(1). Não há um dever-ser. Os dados históricos, assim como os biológicos, apenas nos levam a uma compreensão dos aspectos que envolvem a realidade presente. Mas não determinam necessariamente como o futuro pode ser, ou como é interessante ou justo nos comportar em sociedade.


Mas vamos aos fatos.




Referências Bibliográficas:


(1) Beauvoir, S. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. 4a. edição, v. 1. Difusão Européia do Livro, 1970.


quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A diferença entre afirmar e assumir



Quero fazer uma analise no conceito de "afirmar" e "assumir" e qual a relação de ambos com a aplicação do pragmatismo para conceituar a realidade.


O primeiro ponto é analisar o solipsismo, uma vez que tudo são representações na nossa consciencia, não podemos usar das representações para provar que estas são mais que representações. Assim temos basicamente dois caminhos:
1- Tudo é real;
2- Tudo é ilusão;
Se formos pelo segundo caminho eliminamos com todo o sentido da filosofia e da ciencia, por um motivo pragmatico filosofico e cientifico assumimos como real o primeiro caminho.

O proximo ponto é a questâo da observação, não podemos afirmar que o que observamos é o todo. Posso citar exemplos que essas afirmações foram feitas e não corresponderam como a terra ser plana ou as leis de newton valerem para o todo.Aqui novamente temos dois caminhos:
1- O que observamos vale para o todo até provarem o contrário;
2- Não observo o todo logo não posso concluir nada sobre ele;
Se formos pelo segundo caminho eliminamos com todo o sentido da filosofia e da ciencia, por um motivo pragmatico filosofico e cientifico assumimos que o que observamos vale para o todo.

O terceiro e ultimo ponto é a questao da causalidade de David Hume ao lidar com o futuro, não podemos afirmar que existe um computador na minha frente, pois demora um tempo para as informações externas serem captadas, representadas e interpretadas, como não podemos afirmar que as leis se manteram as mesmas, e o computador na minha consciencia é uma representação do passado, logo não posso afirmar que este existe.Aqui novamente temos dois caminhos:
1- As leis permanecem as mesmas;
2- As leis podem mudar a qualquer momento logo não posso afirmar que o computador está na minha frente;

Se formos pelo segundo caminho eliminamos com todo o sentido da filosofia e da ciencia, por um motivo pragmatico filosofico e cientifico assumimos que o que observamos é o exato presente e que as leis não mudam.

O ponto aqui é o seguinte, existem certos ceticismo que não acrescentam em nada filosoficamente, porque não tem a contribuir com a maneira que analisamos e convivemos com o mundo. Se em qualquer um desses pontos que coloquei seguissimos pelo segundo caminho, estariamos aniquilando toda a historia da filosofia, porque esta seria totalmente sem sentido, uma vez que nenhum filosofo poderia fazer alguma afirmação.

Por um motivo pragmatico filosofico e cientifico assumimos que o primeiro caminho em todos os pontos é verdadeiro. Que fique claro a diferença entre assumir e afirmar, a ciencia assume não afirma, é mutável.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sobre a Realidade

Algumas considerações sobre o que entendo por realidade:

É impossivel provarmos que a realidade que formamos é a mesma que está lá fora, não temos como provar a realidade, porque esta apenas nos é possivel como uma representação na consciencia, nao consigo provar que este computador que eu digito tem sua existencia além da sua representação, porém não vejo como tratar de outra forma, essa discussão se resume no pragmatismo.

A partir do momento que tratamos o que nós é dado como existente, partimos para a proxima discussão que é a questao de haver outras faces da realidade ou não.

Sabemos que dependemos do nosso sistema cognitivo para fazer as representações da realidade, realmente é possivel haver outras faces, outras faces é aqui colocado no sentido dos objetos possuirem mais atributos do que aqueles que nós representamos.

Uma vez que estamos limitados às nossas faculdades, e nunca ninguem conseguiu perceber outra realidade além dessa que nos é dada, logo estamos também limitados para afirmar se o que percebemos é o todo ou se é uma parte, dessa maneira não há porque assumir que é uma parte, pois não temos condições, bases para afirmar isso.

Se existem outras realidade eu não sei, mas voce também não sabe, logo qual a vantagem de ficar devagando sobre esses assuntos?

Outra coisa que deve ficar clara é a distinção entre percepção e interpretação.

Coloco a percepção como a absorção de todas as informações externas ao nosso organismo que são captadas pelo sistema cognitivo, ou seja, recebemos ondas de luz de tudo, e tudo é processado no nosso cérebro, tanto que as vezes quando nos lembramos de alguma situação podemos resgatar coisas que não tinhamos "vistos", ou seja, que não haviam sido interpretados, mas foram vistos, foram processados, pois o cerebro conseguiu lembrar depois.

Ou seja, estamos recebendo todas as informações do exterior, porém interpretamos aquelas que conforme a nossa vivencia (cultura, treinamento, e etc.) foram consideradas importantes quando outras passam despercebidas, mas isso não quer dizer que não foram visualizadas.

O exemplo do indio na cidade, ele pode estar na calçada e vai atravessar a rua e não "vê" o semáforo de pedestres, mas não é que ele não viu, ele recebeu as ondas de luz do semaforo, o que aconteceu é que ele não as interpretou, pois a sua vivencia não diz que aquilo é importante. Porém se alguem apontar para o semaforo, ele irá representa-lo como qualquer outra pessoa.

A interpretação da realidade como um todo é subjetiva, ou seja, cada sujeito interpreta (interpretar é no sentido ser uma determinante para “escolher” como agir) algumas informações de todas que são enviadas e captadas por ele. Mas isso não muda a realidade lá fora, esta é independente do sujeito, pois se todos nos focalizarmos num objeto, todos serão capazes de observa-lo.

A partir do momento que criamos aparelhos que possibiltam a medição de ambientes não perceptíveis pelo nossos sentidos, não estamos entrando em outra realidade. Estamos indo mais fundo na realidade que percebemos, porque não deixamos de perceber com os nossos sentidos, apenas criamos aparelhos que são capazes de "amplia-los".

Ao se falar das caracteristicas da "coisa em si", não podemos afirmar que esta tem mais caracteristicas além daquelas que nos é dadas (caracteristicas transcedentais). Temos cinco sentidos, recebemos informações do objetos e atraves do sistema cognitivo somos capazes de interpreta-las, se todos fossemos surdos, conseguiriamos saber que existem as ondas sonoras, porque elas se mostram a partir da visão por exemplo, ou até mesmo do tato, quando voce está perto de uma caixa de som é capaz de sentir as ondas sonoras.

Concluindo, se nao podemos afirmar que o que percebemos é real, mas não existe outra maneira de viver, logo por uma questao de pragmatismo o solipsismo é descartado. E o mesmo pode se dizer à supostas faces da realidade, se não somos capazes de afirmar nada, novamente invoco o pragmatismo e descubro que não tem porque inquirir nada a respeito, pois não somos nem capazes de verificar.